Início > Artigos > Luís Cunha
Artigo - Luís Cunha

Texto: Luís Virgílio Cunha (5.º Dan Jisei-dô)

Que futuro para as artes marciais?

Des Arts Martiaux            Com a difusão das armas de fogo, as artes marciais perderam a sua utilidade prática tradicional. Em séculos passados quem sabia artes marciais tinha segurança, sabia defender-se em caso de necessidade.

Fazia parte da educação das classes dominantes a aprendizagem de artes marciais com e sem armas. Isto foi assim para todas as civilizações antigas e não apenas para as orientais.

Ainda que hoje se possa considerar importante aprender defesa pessoal, estas artes já não têm a mesma utilidade e importância que tinham noutros tempos.

Praticar artes marciais ao ponto de se tornar perito, não é fácil. É necessário muito esforço e anos de treino diário. Os músculos, os tendões, os ossos, o sistema nervoso e a vontade têm que ser diligentemente preparados para que as técnicas marciais sejam eficazes. Sem dúvida alguma que, para quem queira apenas garantir a segurança, é mais prático adquirir uma arma de fogo.

Hoje exigimos resultados rápidos, de tudo!

Andamos sempre a correr! Nunca temos tempo para nada! Por exemplo, para tirar uma dor de cabeça é sempre mais fácil tomar uma aspirina que descobrir as suas causas e corrigi-las! Ou quando temos sono durante a manhã, porque nos deitámos tarde no dia anterior, é sempre mais pratico e saboroso tomar a bica que modificar hábitos. O corpo pede-nos descanso, o que exige tempo de que nunca dispomos, e nós damos-lhe cafeína, isto é, chicotadas para o acordar. Obrigamo-lo a continuar. O corpo pede-nos uma coisa e nós damos-lhe outra muito diferente.

Obter resultados rápidos e sem esforço é já hábito arreigado. Envolvermo-nos em actividades que exigem uma atitude diferente apenas o faremos se a motivação for imperativa ou se for intelectualmente muito atractiva.

Pensamos que, hoje, as motivações para estas práticas devem ser intelectualmente atractivas.

A mudança dos tempos obrigou as artes marciais a adaptarem-se a novos objectivos: a educação física e o desporto, utilizando os media e o desporto espectáculo e de alta competição como veículos para a sua divulgação.

Estes objectivos são válidos e úteis. Mas, e as artes marciais?

A modificação dos objectivos destas artes e os meios de divulgação que utilizam reflectiram-se e continuam a reflectir-se na transformação dos seus vocabulários ao ponto de as técnicas hoje utilizadas se terem distanciado demasiado dos gestos técnicos originais.

Por exemplo, o karaté que se pratica é um exemplo carismático do que se acaba de referir.
Kenji Tokitsu no seu livro “Methode des Arts Marciaux à mains nues “explana detalhadamente este assunto.

Kenji Tokitsu mostra como as técnicas do karaté foram evoluindo no sentido do espectáculo, passando a ter como objectivo a espectacularidade e a responderem a necessidades do espectador e a especificidades dos canais mediáticos, e não à eficácia marcial.

Antigamente uma técnica era valorizada pelos seus resultados em combate real, hoje é-o pelo seu efeito visual.

É lógico que assim seja, pois na sociedade moderna não tem sentido, aferir a eficácia marcial como no circo romano! (ainda que se façam experiências, social e humanamente deploráveis, nesse sentido como é o caso dos combates “vale tudo”). Há outras formas de o fazer.

Os aspectos visuais das artes marcais são tão marcantes para a sua divulgação que a espectacularidade invadiu os domínios do desporto marcial.

A especialização entre competição de Kata (forma) e competição Kumite (combate) é disto exemplo claro.

Hoje quem compete em kumite geralmente não o faz em kata, porque a liberdade e a criatividade características do combate não são compatíveis com a rigidez formal exigida pelo kata. É como se de dois desportos diferentes se tratasse!

Nesta matéria é interessante verificar que o que antigamente era perfeitamente uno é, nos nossos dias, antagónico. Isto mostra como hoje, a técnica está longe da técnica marcial original.

Mais interessante é verificar que, sem dúvida alguma, alguns dos praticantes de kata e de kumite têm bem forte o espirito e a atitude marciais. Por isso estão convencidos que praticam uma arte marcial. O que não é de todo verdade!

Quem se dedica á competição na vertente kumite está a praticar um desporto fortemente regulamentado não só em favor da protecção e segurança dos intervenientes mas também para tornar mais explicitas as pontuações e, consequentemente, os vencedores.

Os que competem na vertente kata praticam um desporto, com vocabulários técnicos transformados no sentido do impacto visual e da destreza física, à semelhança de outro desportos competitivos não marciais.

Em ambos os casos é utilizada uma atitude considerada marcial que dá a estas práticas o “tom marcial”. Isto é, a forma não corresponde à atitude do praticante. Com o tempo estes dois desportos estarão cada vez mais afastados um do outro.

Por isto, na realidade, quem se dedica aos desportos de combate não está a praticar uma verdadeira arte marcial.

Então, qual o futuro das artes marciais, uma vez que, por um lado, a animalidade dos combates “vale tudo” não é resposta e, por outro, os desportos marciais também o não são?

Repetimos o que anteriormente referimos: as motivações para a prática das artes marciais têm que ser intelectual e socialmente interessantes. Tem que oferecer algo de novo que atraia o homem civilizado e culto.

As artes marciais têm métodos, testados ao longo de séculos, que, para além de constituírem sistemas de defesa pessoal, desenvolvem capacidades físicas, mentais, psíquicas e espirituais nos seus praticantes.

Estas formas de desenvolvimento pessoal global, não apenas intelectual, são procuradas por muitas pessoas noutras áreas. Poucas sabem que as artes marciais quando orientadas numa perspectiva humanista são instrumentos de desenvolvimento privilegiados.

Esta foi a principal razão que levou à formação da Escola Tradicional de Karatedo em 1985 e que continua a ser o objectivo central da sua prática.

A quem esteja interessado em aprofundar esta perspectiva aconselhamos, a leitura do livro. « Budô - le ki et le sens du combat » de Kenji Tokitsu,  Ed. DésIris.

Este livro é considerado no Japão como o mais importante escrito no séc. XX sobre artes marciais e o seu sentido na nossa sociedade. Presentemente apenas está disponível em francês. Prevê-se para breve a sua publicação em língua inglesa.

Está já traduzido em português mas não se encontra ainda publicado. Esperamos vir a encontrar uma editora interessada na sua publicação na nossa língua.

Em próximos artigos iremos abordar ideias explanadas por Kenji Tokitsu neste seu livro.

 

Símbolo de Acessibilidade na Web

ETK @ 2006-2008